O bem viver caiçara em sua relação com a dinâmica costeira

Atualizado: Mai 7


Iluminado pelo sol poente, o mangue-vermelho (Rhizophora mangle) exibe raízes escoras ramificadas com estruturas adaptadas para filtrar a água absorvida, e que o sustentam no solo distintivamente alagado e pobre em oxigênio. A Serra do Mar no horizonte - em mesmo tom do dourado do sedimento fino - contrasta com as nuances da água salobra em um trecho de comunicação do canal do manguezal com o fluxo de maré enchente. Tal como o gênero Rhizophora, os diferentes grupos taxonômicos aqui encontrados, apresentam estratégias e mecanismos para sobreviverem às condições dinâmicas que compõem esta paisagem.


Há ilustrado neste recorte - localizado em uma margem próxima à desembocadura Sul do Complexo Estuarino da Baía de Paranaguá -, a variação espaço-temporal presenciada diariamente com as marés e sazonalmente com o regime de chuvas, ventos e aporte de água doce; a localização do ambiente determina de que forma ele é influenciado pelos fluxos de energia, por essas e por outras escalas de forçantes astronômicas, oceânicas e tectônicas. Sob essa perspectiva, compreendemos que o desenho da paisagem não apenas testemunha sua história, ele é, ademais, o agente dela.

Um sistema em movimento que expressa em suas feições, indícios de processos interativos e transformantes que compõem a dinâmica costeira

Até aqui, continuamos observando os registros visuais do tempo, que não são desconexos e, inevitavelmente, se entrelaçam com a trajetória dos habitantes deste território; desde os resquícios deixados que agora compõem sítios arqueológicos ao presente vaivém das canoas caiçaras entre as porções de terra da baía, há a dimensão humana latente, tão rica e tão similarmente mutável.


Encontram-se como vertentes de um mesmo destino na medida em que o modo de ser e viver deriva-se das mudanças ambientais, em diversos aspectos; tornando a compreensão das variáveis envolvidas na dinâmica do sistema costeiro e oceânico, vital à sobrevivência dessas populações.

Os saberes herdados e os conhecimentos observacionais conquistados na vivência, são transmitidos oralmente e se materializam em características culturais e hábitos sociais únicos do "viver no ritmo do mar": no linguajar, na música, nos apetrechos de pesca e na construção das canoas. Traços que, essencialmente, partem do reconhecimento identitário e do sentimento de pertencimento ao território à beira-mar.

Faz-se uma relação histórica e cultural com as transformações ambientais

A forma de ser e ver das populações humanas não é atemporal e, como a vegetação que aqui desenvolveu caminhos de adaptação às condições específicas, as comunidades caiçaras apresentam transformações históricas e culturais. Neste sentido, é inserida uma luta viva pela manutenção da memória ancestral, onde as circunstâncias a serem consideradas ultrapassam as nuances do tempo que são deixadas na paisagem; o embate origina-se no antagonismo que seu modo de vida representa ao modelo de produção capitalista. A poética então cede seu lugar ao nu e ao cru, que amplifica o significado de "estar à margem", tornando-se uma luta por sobrevivência e pelo bem viver.


Conflitos estendem-se ao longo da costa e apresentam características próprias, rostos, nomes e histórias de famílias inteiras que confundem-se às histórias dos lugares. Contudo, observa-se padrões que podem ser discutidos com base em perguntas diretas: a quem interessa a invisibilidade e o enfraquecimento dos povos que tradicionalmente vivem na costa? Talvez não caiba a você responder, mas... o princípio é indagar.


Deste ponto em diante, vamos além de observar um cenário e identificar suas histórias e suas transições: procuramos apreender seus significados e significar suas relações. Já imaginou como é olhar para um ambiente e identificar em seu funcionamento a representação da sua existência?


Fotos: Ser e Perceber

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